terça-feira, 13 de agosto de 2013

Fernanda Alves: “Fiquei 8 anos nas drogas e cerca de 5 anos nas ruas de São Paulo”



Fernanda Alves, 33 anos,  conheceu as drogas aos 15, quando foi expulsa de casa pela mãe. Com isso, passou a morar nas ruas de São Paulo onde comeu lixo, chegando a tentar o suicídio por diversas vezes.  Após muito sofrimento, a jovem decidiu dar um basta, encontrando apoio de amigos que a ajudaram. Há 10 anos livre das drogas, é assessora parlamentar do vereador Jean Madeira e um referencial do movimento “Juventude Contra o Crack”, que ajuda recuperar jovens inserindo-os  novamente à sociedade.

Karen Salvador: Fernanda, fale sobre o seu início nas drogas?

FERNANDA ALVES: Conheci as drogas (cigarro, álcool,  maconha e mais tarde cocaína, tinner e crack), aos 15 anos de idade. Tudo começou quando meu ex-namorado, alguns amigos e eu fomos passear no parque da cidade, onde em um momento de descontração, os meninos sumiram. Ao encontrá-los, os vi fumando maconha e na curiosidade, pedi a eles que me deixassem experimentar. A princípio, eles negaram. Foi então que ameacei contar o fato para as mães deles e por medo, acabaram cedendo a minha chantagem. Foi uma experiência inesquecível. Mas, o que eu não sabia é que aquela alegria momentânea me traria marcas terríveis futuramente e uma vida de dependência.  

KS: Quando se envolveu com as drogas como era seu relacionamento familiar?

FERNANDA ALVES: O convívio com a minha família era perfeito, mas quando conheci as drogas passou a ser insuportável. Eu me tornei uma pessoa estúpida e minha família sofria com as várias brigas que aconteciam durante as madrugadas. Até os vizinhos se sentiam mal com a minha presença, pois eu brigava com todos por motivos fúteis.

KS: Você chegou a morar nas ruas. Como foi esse período?

FERNANDA ALVES: Sim. Devido às várias brigas em casa, por acreditar que seria um bem para a família, minha mãe me expulsou. Fiquei 8 anos nas drogas e cerca de 5 anos nas ruas de São Paulo. Foi muito doloroso cada momento. Eu nunca havia sofrido tanto. Fui criada dentro de casa, minha mãe sempre lutou para que eu e meus irmãos tivéssemos uma boa educação, mas de uma forma brutal, eu tinha perdido tudo por causa das drogas. Não tinha mais ninguém. Para comer, tinha que pedir para as pessoas que passavam na rua, mas quase não conseguia nada. Então, eu partia para as lixeiras em busca da refeição do dia, às vezes, eu encontrava algo e comia. Neste período, o lixo sempre foi a minha fonte: roupas, sapatos, roupas íntimas, cremes para cabelos, produto de pele, resto de batons e bijuterias. No entanto, essa "vaidade" foi sendo roubada, quando o crack começou a mostrar do que ele era capaz. Passei a não me preocupar mais com a higiene pessoal nem com mais nada, pois o lixo passou a ser apenas fonte de alimentação. O vício roubou a minha família e depois roubou o meu eu. 

KS: Quando você decidiu parar qual foi sua maior dificuldade?

FERNANDA ALVES: Decidi parar quando um dia sem eu ao menos imaginar, alguns dos meus "amigos" se voltaram contra mim. Era uma noite bonita e estrelada, eu estava usando drogas num barraco muito pequenino, quando eles chegaram com armas em punho. Armas grandes, como calibre 12 e pistolas automáticas, dizendo que iriam me matar. Eu gritei muito e isso alertou os vizinhos, então, eles saíram para "acalmar" a vizinhança, mas na calada da noite, voltaram e encheram o barraco de tiros. No entanto, eu não me encontrava mais no local, pois sem que notassem, sai daquele lugar após a saída deles e me escondi na casa de uma vizinha, de onde ouvi tudo o que eles diziam. Naquele momento, eu decidi que era hora de parar e dar mais valor a minha vida.  Tive muitas dificuldades em me inserir novamente com amigos e familiares, por exemplo. Mas minha maior luta foi mesmo a abstinência. Eu sentia dores no corpo, estômago, garganta, tinha muitos tremores e a voz sumia. Eu tive vontade de desistir, mas me lembrava daqueles momentos de ameaça vida e do sofrimento. 

KS: Você teve o apoio de alguém?

FERNANDA ALVES: Sim. A princípio, tive o apoio de dois jovens, uma moça chamada Simone e um rapaz, o  Rodrigo. Os dois estavam muito decididos a me ajudar, eles tiveram muita paciência, me ensinaram a ler a Bíblia e a ter novamente um caráter de dignidade. São duas pessoas a quem devo muito respeito, pois eles me mostram que eu poderia ter uma vida comum como a de qualquer outro jovem, mas sem as drogas. Outras duas pessoas mais que especiais também foram colocadas por Deus no meu caminhos, para abrilhantar a minha história. O Erik Teixeira e sua esposa Marina, a quem considero como pai e mãe. Recebi deles um amor que as drogas roubaram de mim e que eu jamais teria conhecido, se ambos não tivessem me mostrado. Com eles, aprendi dia a dia a respeitar e obter respeito. Agora, o mais especial dentre todos os que a vida me trouxe, foi o pastor Jean Madeira que acreditou em mim, na minha história de vida e ainda tem acreditado que eu sempre posso ir além. 

KS: Há quanto tempo você está livre das drogas?

FERNANDA ALVES: São dez anos de liberdade e de muita alegria! Dez anos sem nenhuma recaída, nenhuma vontade de voltar atrás.

KS: Como é sua vida hoje?

FERNANDA ALVES: Hoje eu vivo feliz ao lado da minha família, curto o meu filho.  Trabalho como assistente parlamentar na Câmara Municipal de São Paulo e atualmente, faço faculdade de serviço social. Moro com o meu filho e hoje minha família é totalmente unida, não temos mais brigas em nosso lar.  Tenho a vida digna que a Simone e o Rodrigo me disseram que eu poderia ter, aprendi a usar a fé em Deus e tenho alcançado os benefícios dela.  Minha maior paixão é ajudar os jovens a se livrarem das drogas, por isso, faço um  trabalho de orientação e prevenção junto com o “Juventude Contra o Crack” nas casas de recuperação, além colaborar no atendimento online. 

KS: O Movimento Juventude Contra o Crack é uma campanha que visa o combate às drogas e que recentemente, recebeu o prêmio  de Segurança Humana da ONU. Como é para você ser a garota propaganda desse importante trabalho?

FERNANDA ALVES: Não me considero garota propaganda, me considero mais uma guerreira que abraça a causa! Acredito que o prêmio foi merecido devido ao grande esforço de toda uma equipe que vem se esmerando há anos no trabalho de prevenção e reintegração dos jovens à sociedade civil, antes mesmo da minha chegada a ele. O prêmio foi merecidamente entregue nas mãos do pastor e vereador Jean Madeira. Digo merecidamente porque jamais conheci um homem com um objetivo tão firme quanto ele, que luta mais que suas próprias forças para levar sonhos e realizações às pessoas que nunca tiveram uma chance. Reforço as minhas palavras ditas a respeito dele e acrescento, dizendo que para mim apenas um versículo explica e demonstra o tamanho da minha admiração por ele: Mas a sua voz ressoa por toda a terra e as suas palavras até os confins do mundo... que é como um noivo que sai de seu aposento e se lança em sua carreira com a alegria de um herói. (Salmos 19:04 e 05)

KS: Deixe uma mensagem aos usuários que estão lutando para se ver livre da dependência química:

FERNANDA ALVES: Cada um de vocês tem condições de mudar e chegar onde quiser. É Deus que capacita e coloca as pessoas certas em sua vida. Ele só precisa ver a sua disposição em servi-lo e aceitá-lo. Então, meu amigo(a), fuja dos pensamentos de negatividade que diz que você não consegue e coloque-se à disposição de Deus, que tudo pode. Foi Ele quem mudou a minha vida e está disposto a mudar a sua também. Faça como eu! Decida enquanto ainda há fôlego de vida em você. Uma passagem jamais saiu da minha mente e eu quero que fique gravada na sua também: "Olho nenhum viu, ouvido nenhum ouviu, mente nenhuma imaginou o que Deus preparou para aqueles que o amam"; (Romanos 8:28)  Ame a Deus e deixe Ele agir em sua mente e transformar a sua vida porque esse é o caminho da liberdade de todo e qualquer vício.
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